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ARTIGO – Mandioca: um presente da Amazônia para o mundo, por Joanna Martins

A mandioca (Manihot esculenta Crantz) é um alimento originário do Brasil e da Amazônia. Atualmente temos a comprovação a partir da arqueologia, que o epicentro de origem biológica do produto é na região a Oeste do Brasil entre os estados do Acre, Amazonas, Rondônia e a Bolívia. 

Os indígenas e vários outros povos que atualmente habitam a região mantêm o hábito do cultivo e consumo dessas raízes, desde muito antes da chegada dos portugueses no Brasil e até hoje. 

A cultura alimentar brasileira não começou quando o Brasil foi descoberto, mas antes, e a mandioca foi e é o grande alimento do Brasil, sendo intitulada como a Rainha do Brasil e como pão dos brasileiros por Câmara Cascudo (2004) em seu livro História da alimentação no Brasil. 

A mandioca no Brasil é consumida em seu estado natural, cozida ou frita, mas também é matéria-prima para vários produtos, muito utilizados. Os principais e mais consumidos em todo o país são a farinha de mandioca e o polvilho de tapioca.  Contudo é na Amazônia que ela tem o seu maior uso, tendo até 16 ingredientes feitos a partir dela, todos com tecnologias dos povos indígenas e com registro de suas preparações a mais de três séculos.

Várias espécies de mandiocas são encontradas no Brasil. Seu cultivo data do primeiro milênio a.C. na bacia tropical do Amazonas, a cargo de diversas nações indígenas. Dali se espalhou para países vizinhos, como a Venezuela e as Guianas, chegando depois à América Central e à América do Norte. A partir de 1.500, foram os portugueses que a levaram para outros lugares, reconhecendo sua utilidade como meio de provisão nas grandes viagens marítimas. Da mesma forma e com a mesma utilidade, chegou à África nos navios negreiros que transportavam os escravos. E chegou também na Ásia, a partir das trocas de especiarias, comuns naquele tempo.


Origens mitológicas

A palavra “mandioca” tem origem indígena e significa, em sua forma original, “Casa de Mani” (Mani’oca). O nome está diretamente ligado a uma lenda amplamente difundida entre diversas etnias indígenas, que explica a origem mítica da planta e reforça seu simbolismo como alimento sagrado.

Segundo a narrativa, a filha de um grande tuxaua (chefe de tribo) apareceu grávida, sem jamais ter tido contato com homem algum. Diante da incredulidade do pai, que exigia saber quem a havia desonrado, a jovem mantinha sua inocência, mesmo sob ameaças de castigo. Pouco tempo depois, nasceu uma menina serena e muito bonita, considerada uma filha de Tupã, e que recebeu o nome de Mani.

Anos depois, Mani morreu repentinamente e foi enterrada na própria oca, conforme os costumes da aldeia. Algum tempo depois, os moradores perceberam que, do chão da sepultura, havia brotado um arbusto esguio. O pajé, em sonho, recebeu uma mensagem de Tupã: era preciso arrancar a planta e aprender a consumir suas raízes. Assim se revelou o presente de Mani ao seu povo — uma raiz que se tornaria símbolo de sustento, espiritualidade e presença eterna.

Essa história — repetida, reinterpretada e transmitida oralmente entre gerações — consolidou a mandioca não apenas como um alimento essencial, mas como parte do imaginário sagrado e cultural dos povos originários do Brasil.

 

Pesquisas

As mandiocas podem se classificar, de acordo com centros de pesquisa brasileiros como a Embrapa, da seguinte forma:  

 

CLASSIFICAÇÃO DA MANDIOCA (EMBRAPA) 
Cultivares  Mandioca mansa ou doce 
Mandioca brava ou amarga 
Coloração da massa das 

raízes 

Raiz branca 
Raiz amarela 
Raiz intermediária (creme) 

 

Pesquisadores brasileiros, como os da Embrapa, classificam a planta principalmente em:

– Mandioca doce (ou mansa, macaxeira) — pode ser consumida após o cozimento simples.

– Mandioca brava (ou amarga) — precisa de tratamento rigoroso para eliminar compostos tóxicos.

Também pode ser classificada pela cor da polpa: branca, amarela ou creme.

 

Mandioca Brava
Conhecida por alguns povos indígenas como kii, a mandioca brava é mais consumida na Amazônia, sendo mais rica em amido e mais resistente a pragas. Porém, não deve ser consumida diretamente, pois contém cianeto. É usada industrialmente para produção de fécula e farinha.

Uma variedade chamada maniçobeira é valorizada por suas folhas, usadas no preparo da maniçoba, prato típico da Amazônia feito com carnes defumadas e folhas de mandioca cozidas por vários dias.

A mandioca mansa, também chamada macaxeira, é amplamente consumida no Brasil e não exige processamentos complexos. Pode ser preparada de diversas formas: cozida, frita ou assada.

Mandiocaba: a mandioca açucarada
Menos conhecida, a mandiocaba era utilizada na produção de uma bebida fermentada chamada manicueira. Apesar de conter pouco amido, é rica em glicose e sacarose — o que a torna eficiente para a produção de etanol. Pesquisas da Embrapa mostram que ela pode render mais etanol por quilo do que a cana-de-açúcar.

 

Diversidade de usos e produtos

 

Cozida, assada ou frita; em forma de farinha, polvilho, carimã ou goma, a mandioca é um verdadeiro presente ancestral na mesa brasileira. Dela, tudo se aproveita e suas formas de preparo, processamento e consumo expressam a diversidade cultural e culinária do Brasil. É a base de pratos cotidianos e rituais, e sua transformação envolve saberes indígenas com mais de 500 anos, ainda vivos e reinventados.

Subprodutos da mandioca

Entre os subprodutos mais tradicionais está a manicueira, suco extraído da raiz ralada e espremida em um tipiti — instrumento trançado típico das culturas indígenas. Da decantação da manicueira obtém-se o polvilho ou goma de tapioca. Quando seco diretamente, vira polvilho doce; após fermentação, transforma-se em polvilho azedo. Essa goma é base para a tapioca, bolos, pães e até o tradicional pão de queijo.

Outro derivado essencial é o tucupi amarelo — caldo extraído da mandioca brava, fermentado entre 12 e 72 horas e fervido por pelo menos 50 minutos para eliminar o ácido cianídrico. Temperado com ervas como chicória e alfavaca, o tucupi ganha sabor único, entre o doce amargo e o umami. É ingrediente central da cozinha amazônica, utilizado em pratos como pato no tucupi e tacacá (foto abaixo), e também vem sendo incorporado à gastronomia contemporânea, em molhos, saladas, risotos, carnes e até sobremesas como sorvetes e brigadeiros.

Do tucupi fermentado deriva ainda o tucupi preto ou pixuna, obtido por concentração e caramelização. Em ponto de pasta ou líquido, é usado como tempero, marinada ou molho — conhecido como shoyu amazônico, graças ao seu sabor umami, levemente defumado e salgado.

 

O tacacá é uma das comidas típicas da Amazônia feita com o tucupi, líquido amarelo derivado da mandioca. Foto: FreePik

As farinhas de mandioca

A farinha, obtida da fibra restante da raiz após prensagem, varia conforme o modo de preparo:

  • Farinha seca: mandioca ralada, espremida e seca no fogo;
  • Farinha d’água: fermentada antes da secagem;
  • Farinha crua: pouco torrada, de cor clara;
  • Farinha torrada: mais escura e crocante;
  • Farinha flocada (beiju): flocos grossos e soltos. 

 

Farinha. Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Na Amazônia, as farinhas têm granulometria mais grossa e costumam ser fermentadas. Algumas já têm Indicação Geográfica (IG) reconhecida, como a Farinha d’água de Bragança (PA), a Farinha de Uarini (AM) e a Farinha de Cruzeiro do Sul (AC).

 

 

Bebidas fermentadas tradicionais

A fermentação da mandioca também origina bebidas tradicionais indígenas, como:

– Caxiri: à base de mandioca cozida, às vezes com batata-roxa;
– Pajuaru: feita com beiju queimado e folhas de mandioca, com alto teor alcoólico;
– Cauim: bebida cerimonial dos Tupinambás, preparada com mandioca mastigada, que ativa a fermentação. Era consumida em rituais comunitários, as cauinagens.

 

Pratos emblemáticos da culinária brasileira com mandioca

A mandioca é presença garantida do café da manhã ao jantar, em receitas regionais que combinam ancestralidade, técnica e afeto:

Tacacá (Amazônia): tucupi, goma de tapioca, camarão seco e jambu.
Pato no Tucupi (Pará): pato assado imerso em tucupi, com jambu e arroz branco.
Maniçoba (Pará e Bahia): cozido de carnes com maniva (folhas da mandioca brava cozidas por dias).
Beiju ou tapioca recheada (Nacional): panqueca feita na frigideira com goma hidratada.
Farofa (Nacional): farinha de mandioca com manteiga, cebola, alho e variações.
Carimã e bolos de puba (Norte e Nordeste): massa fermentada usada em bolos úmidos com leite de coco.
Sequilhos e biscoitos de polvilho (Sudeste, Centro-Oeste e Norte): crocantes e leves, presença constante nas estradas brasileiras.
Pão de Queijo (Nacional): feito com polvilho doce e azedo, ícone do café da manhã.
Caxiri, Pajuaru e Cauim (Amazônia): bebidas rituais e coletivas, com valor simbólico e espiritual.

 

Mandioca: símbolo de identidade e inovação

Mais do que um alimento, a mandioca é expressão de identidade, resistência e inovação. Seus modos de preparo preservam técnicas indígenas milenares que hoje inspiram pesquisadores, chefs e comunidades. Seja como base, espessante, bebida, crosta, perfume ou textura, a mandioca traduz o sabor brasileiro em sua forma mais pura e ancestral. Ela conecta o passado e o presente com potência, da roça ao restaurante, do ritual ao prato de todo dia.

 

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