O ciclo de três laboratórios do Projeto Intercâmbio Amazônia encerra uma etapa decisiva de formação e troca gastronômica que atravessou diferentes territórios, ingredientes e perspectivas culinárias. Realizados ao longo de vários meses, os laboratórios reuniram chefs brasileiros e dinamarqueses, jovens cozinheiros selecionados e representantes de comunidades tradicionais, criando um ambiente de experimentação que aproximou técnicas profissionais e saberes transmitidos entre gerações.
A metodologia dos laboratórios foi estruturada para promover uma imersão prática e colaborativa, unindo investigação culinária, diálogo intercultural e participação ativa das comunidades. Cada módulo combinou demonstrações técnicas, exercícios de degustação, visitas de campo, rodas de conversa e momentos de criação coletiva, permitindo que os participantes compreendessem o ingrediente não apenas como matéria-prima, mas como parte de um ecossistema cultural, econômico e ambiental.
A abordagem integrou saberes tradicionais, técnicas profissionais e perspectivas internacionais, incentivando a experimentação, o registro sistemático das práticas e a construção conjunta de receitas. Esse formato permitiu que o aprendizado ocorresse de forma horizontal, valorizando tanto o conhecimento dos chefs convidados quanto a experiência cotidiana dos comunitários.
Laboratórios nas comunidades: o diferencial do projeto
O primeiro laboratório, dedicado à Mandioca, apresentou a diversidade de usos de um dos produtos mais emblemáticos da região. Entre farinhas artesanais, tucupi, beiju, pães e fermentações, o grupo explorou processos tradicionais de casas de farinha e discutiu temas como cadeia de valor, segurança alimentar e inovação. Para alguns participantes estrangeiros, o encontro foi uma imersão inédita na complexidade técnica da mandioca; para cozinheiras e cozinheiros locais, foi oportunidade de ver seu conhecimento reconhecido e reinterpretado em novas propostas culinárias.
No segundo módulo, Ervas e Especiarias, as conversas se deslocaram para o universo aromático da floresta. Plantas de uso alimentar e medicinal, espécies cultivadas em quintais e ingredientes como jambu, priprioca e alfavaca foram combinados a diferentes abordagens do cacau amazônico. O laboratório destacou a força econômica e cultural do fruto, ao mesmo tempo em que ampliou o repertório sensorial dos participantes. As atividades incluíram demonstrações, caminhadas, exercícios de degustação e criações coletivas que buscaram dialogar com técnicas nórdicas contemporâneas.
O ciclo se completou com o laboratório de Ostras e Pescados, realizado em área costeira e marcado pela participação de pescadores, marisqueiras e comunitários que lidam cotidianamente com o ritmo das marés. O grupo acompanhou práticas de manejo, conheceu desafios do trabalho comunitário e testou preparações com espécies locais, unindo técnicas de defumação, cura, caldos, marinadas e preparos tradicionais. O módulo evidenciou a importância da pesca artesanal, das atividades de extrativismo costeiro e da valorização dos territórios ribeirinhos.
O encerramento dos três laboratórios marca um momento de síntese para o Projeto Intercâmbio Amazônia. As receitas criadas, as pesquisas levantadas e os vínculos estabelecidos entre chefs, alunos e comunidades formam um acervo que ultrapassa o ambiente de formação e passa a integrar uma rede de colaboração em torno da gastronomia amazônica. O ciclo reafirma a importância de processos de troca internacional aliados a uma escuta ativa dos saberes tradicionais, mostrando que inovação e memória podem caminhar lado a lado na construção de novas narrativas para a culinária da região.



