Na Comunidade Quilombola Espírito Santo do Itá, em Santa Izabel do Pará, a mandioca está em tudo: na casa, no trabalho, na fé, na festa, na tradição e no futuro. É raiz que se desdobra em farinha, goma, tucupi, maniva, beiju e pé de moleque; mas também é raiz no sentido mais profundo, aquela que ancora a identidade quilombola, que liga as famílias à terra, que garante autonomia e soberania alimentar. Entre o chão da roça, o calor da casa de farinha e a alegria das festas, a comunidade reafirma que manejar a mandioca é também produzir história.
Distante 64 km de Belém, a comunidade foi criada com antepassados que viviam às margens do igarapé Espírito Santo do Itá e que, ao longo das décadas, consolidaram práticas de agricultura familiar. De lá para cá, mudanças territoriais, perdas de lotes agrícolas e pressões externas reduziram a área de plantio, mas não o significado da cultura agrícola. “Nossa comunidade é remanescente de escravizados e temos muito orgulho disso”, afirma Silvane Santos, mulher quilombola que cresceu acompanhando a família entre a roça e a casa de farinha e que atualmente é a presidente da Associação Quilombola Espírito Santo do Itá.
Silvane, que atua como raspadeira e produz o tradicional Beiju Chica com uma amiga, aprendeu desde cedo o valor da terra e dos alimentos feitos à mão. Ela descreve um cotidiano de trabalho minucioso: limpar, raspar, moer, torrar, peneirar. São gestos transmitidos entre mães, filhas e netas, repetidos diariamente nas casas de farinha que funcionam como espaços de convivência, aprendizado e afeto. “Quando eu era criança, fazia de tudo: plantava, cuidava e colhia. Hoje continuo nesse ofício e tento passar adiante, mas os jovens têm outros caminhos”, diz.

O processo – que inclui arrancar, pesar e ensacar a raiz – garante que a produção semanal abasteça a feira de Santa Izabel. Ao final do mês, essa movimentação soma entre 30 e 40 toneladas de mandioca transformadas em farinha, goma, tucupi, maniva, beiju e pé de moleque assado na folha da bananeira.
Silvane explica que o modo de fazer cultivado na comunidade é fruto de uma tradição longa, moldada pela convivência e pelo aprendizado coletivo. “Acredito que é o jeito tradicional mesmo, que a gente aprendeu e foi ajustando com o tempo, mas sem perder as nossas raízes.” Nas festas, encontros comunitários e celebrações religiosas, a mandioca aparece como eixo central da gastronomia e da memória afetiva: “Com certeza. A mandioca é nosso carro-chefe. Somos conhecidos pela nossa gastronomia baseada nos derivados dela”, comenta.
Para manter essa herança viva, a comunidade aposta na transmissão contínua do saber. Ela descreve esse compromisso como um gesto diário de pertencimento e cuidado: “Tentamos sempre passar aos mais jovens a importância da mandioca para a nossa cultura e para a comunidade.” Nas casas de farinha, crianças observam, imitam e aprendem os movimentos dos mais velhos, enquanto famílias inteiras se envolvem nas etapas de produção que marcam o ritmo da semana. Assim, tradição, trabalho e convivência se entrelaçam, garantindo que a mandioca continue a ser um patrimônio vivo, renovado a cada geração.
Festival da Mandioca
Esse modo de vida também pulsa no Festival da Mandioca, criado por Regina e sua família em 2013 para ajudar na construção da igreja da comunidade. Pensado inicialmente como uma alternativa aos bingos tradicionais, o festival rapidamente se tornou o maior evento local, ao unir cultura, gastronomia e identidade quilombola. Em cinco anos, foi reconhecido como patrimônio cultural de Santa Izabel do Pará, reforçando o orgulho comunitário. “O festival deu visibilidade, principalmente às mulheres, que são o coração da produção”, destaca Regina. “Além de fortalecer a economia, fortalece a autoestima”.
O evento movimenta toda a comunidade: apresenta danças, músicas e culinária local; reúne visitantes e moradores de territórios vizinhos; envolve jovens em apresentações culturais e tarefas organizativas; e reafirma a centralidade da mandioca como elemento simbólico. Para muitos adolescentes, é no festival que se dá o primeiro contato mais profundo com as técnicas tradicionais – seja ajudando nas barracas, seja participando da colheita ou da preparação dos produtos a serem vendidos.
Mais do que celebrar a gastronomia, o festival ajuda a sustentar melhorias coletivas. Com a renda das primeiras edições, a comunidade finalizou a igreja, construiu o barracão de eventos, ergueu uma cozinha e reformou estruturas essenciais. Todo o recurso arrecadado permanece sob gestão comunitária e é reinvestido em bens coletivos, reforçando o caráter solidário e autônomo do território.
Outra iniciativa essencial para preservar a memória das práticas de manejo é o Museu da Mandioca, criado pela própria comunidade como espaço de referência cultural. Para eles, o museu representa um gesto de retomada: resgata uma raiz que, por algum tempo, parecia esquecida e reafirma a ideia de que a mandioca não pode desaparecer: é ela que sustenta o trabalho, a renda e o orgulho local.
“É uma raiz que nos dá força para trabalhar e oferecer nosso produto”, explica o morador da comunidade, Ronaldo Damasceno. O espaço reúne utensílios, histórias, imagens sobre os modos de fazer e lembranças do cotidiano, valorizando a produção e a identidade do território. “O museu traz essa referência da nossa produção e do nosso dia a dia. A nossa goma é de muita qualidade e a maniçoba é deliciosa”, completa, reforçando que tradição e sabor seguem caminhando lado a lado.




