Na Vila Lauro Sodré, o mangue é onde brotam as esperanças. A mais antiga vila de Curuçá, no nordeste paraense, fica a cerca de duas horas e meia de Belém e é conhecida como a “terra da ostra”. Com quase duas mil pessoas, o território abriga a Comunidade Lauro Sodré, onde está sediada a Associação de Aquicultores da Vila Lauro Sodré (Aquavila), referência regional na produção sustentável de ostras e anfitriã do Laboratório Culinário #3, do Projeto Intercâmbio Amazônia.
A comunidade foi presenteada pela natureza com um banco natural de ostras, de onde retiram as sementes que dão início ao cultivo realizado pelos produtores da associação. Cada um maneja o próprio espaço de criação, mas a comercialização e os lucros são partilhados, mantendo vivo o princípio cooperativo que sustenta o trabalho. O cultivo transformou a economia local: além de vender ostra nos tamanhos baby, média e máster, a comunidade hoje fornece sementes para os municípios de Salinópolis, Augusto Corrêa e para a comunidade de Pereru de Fátima, em São Caetano de Odivelas.
Há quase 20 anos, o tradicional Festival da Ostra movimenta a região no mês de novembro, reunindo centenas de visitantes em torno da culinária local. Coxinha de ostra, ostra acebolada, estrogonofe, gratinada, in natura, sopa, fricassé e ostra no tucupi dividem espaço com mariscada, turú, peixe frito e caranguejada. Mais do que festa, o festival fortalece a cadeia produtiva e reforça o protagonismo comunitário.
Bioeconomia que nasce do mangue

A experiência de produção de ostras em Lauro Sodré é um exemplo concreto de bioeconomia amazônica baseada em saberes tradicionais, pesquisa científica e gestão pública. Os bancos naturais de ostras da costa paraense, formados pela mistura entre águas doces e influência oceânica, são únicos no Brasil e garantem segurança alimentar, renda e equilíbrio ambiental para inúmeras famílias.
O projeto desenvolvido na comunidade articula conhecimento popular e pesquisa técnica, com apoio para monitoramento ecológico, melhorias sanitárias e introdução de tecnologias de cultivo e engorda flutuante. A autorização do Ibama, aguardada pelos produtores, permitirá ampliar a produção sem comprometer a integridade da Reserva Extrativista (Resex) Mãe Grande de Curuçá, onde a vila está inserida.
Reconhecida pela produção sustentável da espécie Crassostrea brasiliana, a Aquavila mantém boas práticas que preservam o ciclo natural do molusco. Para que uma ostra chegue ao tamanho ideal de venda, são necessários de oito a nove meses de cultivo, um processo que envolve manejo cuidadoso e acompanhamento contínuo da qualidade da água e das marés.
O trabalho conta com a parceria da Semas, Rare Brasil, Universidade Federal do Pará (UFPA) e Ibama, reforçando a importância de soluções que nascem no território e se articulam com políticas públicas e ciência.
Histórias de quem vive da maré
A história da ostreicultura na vila é feita de persistência. Taciara Freitas da Silva Galvão, presidente da Aquavila, lembra que antes a comunidade usava apenas a casca da ostra para fazer cal. “Não era comum comer a ostra. Um dia começaram a experimentar, fritar, e viram que era boa”, recorda. O cultivo ganhou força no início dos anos 2000, quando o biólogo cubano Leonardo Chagas identificou Lauro Sodré como o ambiente ideal para o desenvolvimento da atividade.
“No começo muita gente desistiu, porque o retorno demorava. Ficaram os que acreditaram”, diz Taciara, citando os pioneiros José, Dona Elza e Denis Galvão. Hoje, a associação reúne dez produtores, cinco mulheres e cinco homens, e envolve cerca de 50 pessoas de forma indireta. O ciclo começa nos coletores feitos de garrafa PET, onde as sementes se fixam até chegarem à fase adulta. “Acompanho desde a sementezinha. Quando chega a hora de comer, é gratificante”, comentou.
Apesar das dificuldades logísticas e burocráticas, Taciara vê na ostreicultura um caminho de futuro. “Sustento minha casa com ostra. É gratificante trabalhar com essa paisagem, com esse mangue. Aqui a gente cuida e ensina para os filhos que é possível viver da floresta sem destruir”, completou.
O orgulho também move José Galvão, integrante da associação. “Hoje me sinto muito orgulhoso de trabalhar nesse cultivo. Crio meus filhos mostrando o valor da natureza, preservando para garantir o futuro das próximas gerações”, afirma. Nascido e criado no território, ele viu o projeto nascer e se tornou técnico em cultivo de ostra. “Trabalho com isso há 23 anos. Essa natureza, esse ar do litoral, faz parte da nossa vida. Me sinto realizado e com força para continuar”, disse.
Um novo capítulo com o Intercâmbio Amazônia
Em 2025, a chegada do Projeto Intercâmbio Amazônia abriu novas portas para a comunidade. “Foi o primeiro projeto que trouxe tanta gente para ver de perto o que fazemos, ainda mais no período da COP. É bom ver nossa realidade sendo reconhecida”, destaca Taciara.
Entre mangue, marés e trabalho coletivo, a Vila Lauro Sodré segue escrevendo uma história que combina saberes antigos, inovação e pertencimento. Uma maré de resistência e esperança que mostra, ao Brasil e ao mundo, como a Amazônia costeira pode inspirar modelos sustentáveis de viver, produzir e preservar.



